(kylix ático de figuras vermelhas, 440-430 a.C., British Museum, (vaso E84))
A mitologia grega é o testemunho da representação do mundo antigo, tanto através de um vasto conjunto de textos como de representações pictóricas. Através das suas inúmeras narrativas, cujo enquadramento ultrapassa a sacralidade que lhe é mais habitualmente conferida, as personagens e os acontecimentos evocados arvoram uma dimensão histórica servindo de base aos historiadores da Antiguidade. Assim, os mitos tornam-se o espelho, deveras fantástico, de uma sociedade autêntica. Contudo, seria errado considerar anacrónico a possibilidade da existência de um paralelismo entre a mitologia grega e a actualidade. É apanágio da História, como o ilustrara o filósofo Giambattista Vico na sua teoria cíclica do «corsi et ricorsi», a utilidade do passado afim de esclarecer o presente, e porventura antecipar os tempos vindouros. O mito do leito de Procrusto é um dos inúmeros exemplos deste paradigma.
Procrusto (também conhecido como Procrustes, Procusto, Damástes ou ainda Polipémon) vivia, segundo o historiador Diodoro Sículo (séc. I a.C.), junto do caminho que ligava as cidades de Atenas e Elêusis. Procrusto oferecia a sua hospitalidade aos viajantes que por aí passavam, porém, com um intuito bem menos pacífico do que alegara. Os hóspedes eram amarrados numa cama na qual deveriam caber na medida exacta. Os que ultrapassavam o tamanho do leito viam os seus membros decepados; ao contrário, os que não ocupavam a totalidade da cama eram esquartejados até que os seus corpos ocupassem toda a sua extensão. Procrusto infligia, assim, a tortura da uniformização! No entanto, Teseu, um dos mais lendários heróis da mitologia grega, derrota o sinistro hospedeiro aplicando-lhe o mesmo tratamento. É que nem Procrusto cabia exactamente no seu próprio leito!
O paralelo com outros momentos da História da Humanidade é facilmente demonstrável. Senão, vejamos as assombrosas teorias raciais impostas pelo nazismo, que se reclamavam do darwinismo social em voga na Europa dos finais do século XIX e que pugnavam pela superioridade e pela pureza da raça ariana. Caricaturando… “altos, fortes, louros e de olhos azuis”, uma raça pura que passara imaculada pelos meandros da História. Adolf Hitler, führer de um Reich que duraria mil anos, Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazi, Heinrich Himmler, chef incontestado das SS e da Gestapo, ou, ainda, Rudolph Hess, são casos paradigmáticos da incoerência de certos dogmas. Mas olhemos para o presente…
Segundo os dados oficiais, Portugal contava, em 2004, perto de 450 mil imigrantes, divididos entre os que detinham uma autorização de permanência no território, a qual carece de renovação, e os que detinham autorização de residência. Entre estes nossos conterrâneos, os brasileiros, ucranianos e cabo-verdianos são os mais representados; América do Sul, África e Europa do Leste; três continentes, três culturas, três vivências distintas, ambas num mesmo espaço geográfico, num leito nacional idêntico. Em toda a Europa, isto para não alargar a problemática à totalidade do orbe, as questões migratórias e identitárias têm assumido contornos cada vez mais relevantes e, na verdade, preocupantes. Bastaria lembrar o modus operandi da ideologia fascista no século XX e a importância dos axiomas identitários e nacionais para a sua afirmação política. França e Alemanha, os dois países europeus que mais imigrantes acolhem, têm debatido os prós e os contras dos seus sistemas de integração das comunidades estrangeiras, e da necessidade de transformações afim de atenuar os efeitos contraproducentes que irreversivelmente geram. Mas não seria sensato comparar liminarmente a imigração destes dois países, que arvora condições muito mais complexas, nomeadamente religiosas, com a realidade portuguesa. Os imigrantes residentes no nosso país são, sem margem para dúvida, um elemento positivo concorrendo para a dinamização da nossa frágil economia, contribuindo para estabilizar uma taxa de natalidade em queda abrupta desde os anos 70 do século passado, fornecendo mão-de-obra em sectores carenciados, custeando, como qualquer outro contribuinte, as reformas dos nossos idosos, os subsídios dos mais necessitados, todo o sistema de saúde e de educação, etc. Além disso, a imigração representa um manancial cultural invejável, uma fonte diversa de conhecimento, de enriquecimento pessoal, um entrecruzar de saberes que nenhuma obra escrita pode suplantar.
Procrusto desejava eliminar as especificidades, fundi-las numa norma pré-estabelecida em que todos caberíamos mas Portugal, este país moldado ao longo dos séculos pelo encontro de culturas, desde os Fenícios, passando pelos Romanos, Bárbaros do norte da Europa, Mouros, Africanos, Ameríndios, Asiáticos, até à integração no espaço comunitário europeu, não deve cair na tentação da uniformização. Jean Bodin, no século XVI, afirma que «a riqueza está nos homens»; acrescentaríamos que homens diferentes ampliam essa riqueza.