2010/11/28

L'avenir du livre?! O futuro do livro?!


Mike Keefe, Back to school (The Denver Post, 20/08/2010)

Sans vouloir paraître réactionnaire c'est malheureusement ce que l'on constate dans nos écoles...
Sem querer parecer reaccionário é infelizmente o que sucede nas nossas escolas...

2010/11/18

Epidemia de cólera no Haiti - Épidémie de choléra en Haïti

Milhares de haitianos aguardam tratamento. São mais de mil as vítimas mortais do contágio.
Des milliers de haïtiens attendent d'être soigner. Plus d'un millier de victimes de la contagion.

Um homem inconsciente, deitado no chão junto ao Palácio Presidencial. Haiti, 16 de Novembro de 2010.
Un homme inconscient est allongé sur le sol près du palais présidentiel détruit par le tremblement de terre en Haïti le 16 novembre 2010. (L'Express; photo Hector Retamal/AFP)

Une femme malade devant l'hôpital central de Port-au-Prince.
Uma mulher doente à porta do hospital central da capital haitiana.(Público; foto Hector Retamal/AFP)

2010/11/17

Cimeira da NATO impõe o fecho da fronteira de Vilar Formoso... Le sommet de Lisbonne de l'OTAN contraint à la fermeture des frontières à Vilar Formoso...

A segunda vez desde a assinatura dos acordos de Schengen... sem comentários... La deuxième fois depuis la signature des accords de Schengen... sans commentaires...

Chekpoint NATO, Lisboa, 16/11/2010 (photo Público)

2010/11/13

Europa das Pátrias vs. Federalismo solidário: o diktat económico

            A construção europeia tem sido alvo de inúmeros avanços e retrocessos. O propósito dos pais fundadores apontava para uma realização faseada. Robert Schuman, um dos principais instigadores da Europa comunitária a par de Jean Monnet, afirmava nos anos 50 do século passado: «A Europa não será realizada de uma vez só, nem através de uma estrutura conjunta: far-se-á através de realizações concretas». Desde 1957, e a instituição da CEE pelo Tratado de Roma, as divergências entre adeptos de uma Europa da Nações, onde as soberanias nacionais se sobrepõem ao poder decisório europeu, e a visão federalista têm sido frequentes. À Europa das Pátrias, defendida por De Gaulle, opunham-se o modelo alemão federalista. Contudo, esta dicotomia parece estar a vacilar em prol dos interesses económicos, em detrimento da ideia de uma Europa federal e portanto necessariamente solidária. A própria Alemanha, arauto do federalismo, parece, segundo as últimas declarações da sua chanceler, obedecer exclusivamente às exigências da crise económica, pondo de parte alguns princípios que alicerçam o projecto europeu. No sentido de ilustrar esta tendência, decidi transcrever o breve, mas não menos elucidativo, artigo do Público da sexta-feira passada (ontem), da autoria de Manuel Carvalho.

«Angela Merkel transformou a União Europeia num vestido com verso e reverso para usar conforme as conveniências.
Antes de partir para a reunião do G20 em Seul, Merkel exigiu que a UE fosse vista "como um todo", para assim poder recusar as críticas americanas aos enormes excedentes comerciais alemães. Mas no que respeita aos problemas da dívida e do défice, que estão a empurrar a Irlanda ou Portugal para o caos, já não parece haver razões para se olhar a Europa colectivamente. A tese alemã que prevaleceu desde a crise grega é até oposta: cada um que trate de si, que a subtileza de Merkel tratará de lhes agravar os problemas.
Se não é justo exigir aos alemães que paguem os delírios dos ministros portugueses ou a irresponsabilidade dos bancos irlandeses, também não é justo convocar todos os europeus para se justificar o excedente comercial alemão. De resto, os europeus são mais vítimas desse excedente do que qualquer outro povo do mundo. A estabilidade da moeda única, a proibição de os mais fracos recorrerem à desvalorização competitiva da moeda, tanto justifica o défice comercial português como o saldo positivo alemão de 15.600 milhões de euros em Setembro.
O que é difícil de suportar é este discurso hipócrita de Merkel, que ora diz ao Financial Times que "não se pode olhar para a UE com um mercado único e uma moeda única numa base país a país", ora sugere aos credores da dívida soberana para terem cuidado, porque serão obrigados a assumir os custos de eventuais bancarrotas.
Se a UE é vista "como um todo" para justificar os desequilíbrios provocados no mercado mundial pelos alemães, também o deve ser na hora de ser solidária com os Estados aflitos. Não se trata de lhes pagar as contas, apenas de suspender o discurso punitivo que as autoridades alemãs têm usado, apoiar com convicção os seus programas de austeridade ou, como fez hoje, pedir calma aos mercados. Não se pede caridade nem complacência; pede-se apenas coerência, quando se invoca a UE "como um todo".» [Público, 12 de Novembro de 2010, p.3]

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades… (Luís de Camões)

Europe des Patries vs. Fédéralisme solidaire: le diktat économique

            La construction européenne a subi de nombreuses fluctuations durant son histoire. La volonté de ses pères fondateurs reposait sur l’idée d’une construction pas à pas. Robert Schuman, l’un des principaux instigateurs de l’Europe communautaire avec Jean Monnet, affirmait dans les années 50: «L’Europe ne se fera pas d’un coup, ni dans une construction d’ensemble: elle se fera par des réalisations concrètes.» Depuis 1957 et la création par le Traité de Rome de la CEE, les divergences entre les partisans d’une Europe des Nations, où les souverainetés nationales dominent le pouvoir de décision européen, et ceux d’une vision fédéraliste furent fréquentes. À l’Europe des Patries, chère au Général De Gaulle, s’oppose le modèle fédéraliste allemand. Cependant, cette dichotomie semble vaciller ces derniers temps en faveur des intérêts économiques et au détriment de l’idée d’une Europe fédérale et donc nécéssairement solidaire. La propre Allemagne, héraut du fédéralisme, semble, au vu des dernières déclarations de sa chancelière, obéir exclusivement aux exigences de la crise économique, laissant de côté certains principes fondateurs du projet européen. Afin d’illustrer cette tendance, j’ai transcris ici le bref mais non moins elucidateur article du quotidien Público de vendredi dernier (hier), de la main de Manuel Carvalho.
«Angela Merkel a transformé l’Union Européenne en une veste que l’on pourrait porter des deux côtés en fonction des convenances..
Avant de partir pour la réunion du G20 à Séoul, Merkel a exigé que l’EU soit perçue comme un ensemble, afin de pouvoir récuser les critiques faites par les États-Unis aux énormes éxcédents du commerce allemand. Mais en ce qui concerne les dettes et le déficit budgétaire qui sont en train pousser l’Irlande et le Portugal vers le chaos, il n’y a apparemment plus de raisons pour considérer l’Europe collectivement. L’opinion allemande qui a prévalue depuis la crise grecque est même plutôt le contraire: que chacun s’occupe de soi. La “subtilité” de Merkel s’occupera d’en aggraver les problèmes.
S’il n’est évidemment pas juste d’exiger aux allemands de payer les delires des ministres portugais ou l’irresponsabilité des banques irlandaises, il ne l’est pas non plus de demander à tous les européens de justifier l’excédent commercial allemand. De plus, les Européens sont les principales victimes de cet excédent, plus que n’importe quel autre peuple dans le monde. La stabilité de l’euro ou l’impossibilité pour les plus faibles de recourir à la dévaluation compétitive de la monnaie justifient autant le déficit commercial portugais comme le solde positif allemand de 15,6 milliards d’euros de septembre dernier.
Ce qui est difficile à supporter, c’est ce discours hypocrite de Merkel qui affirme aux journalistes du Financial Times que «l’on ne peut appréhender l’UE, avec son marché commun et sa monnaie unique, pays à pays» et en même temps suggère aux créanciers d’être prudent car ils seront obligés d’assumer les coûts d’éventuelles banqueroutes.
Si l’EU est considéré “comme un tout” pour justifier les déséquilibres provoqués sur le marche mondial par l’Allemagne, il doit l’être aussi dans les moments ou la solidarité des pays européens est requise.  Il ne s’agit pas de payer les frais, mais simplement de suspendre le discours punitif que les autorités allemandes ont proféré dernièrement, soutenir avec conviction les programmes d’austérité mis en place, ou, comme elles l’ont fait aujourd’hui, réclamer l’accalmie des marchés. On ne demande pas la charité ni la complaisance, seulement la cohérence lorsqu’on invoque l’EU “comme un tout”.» [Público, 12/11/2010, p.3]


         Les temps changent, les opinions avec… (Luís de Camões)

2010/11/11

La sagesse des peuples milénaires... A sabedoria dos povos milenares...

Tant que les lions n’auront pas leurs propres historiens, les histoires de chasse continueront de glorifier le chasseur. (proverbe africain)
Enquanto os leões não tiverem os seus próprios historiadores, as histórias de caça continuarão a glorificar os caçadores. (provérbio africano)

2010/11/10

Michel Houellebecq, Prémio Goncourt 2010


Michel Houellebecq recebe, finalmente, o Prémio Goncourt, a mais prestigiada recompensa da literatura de língua francesa! Sim, finalmente... Faço parte dos leitores assíduos deste romancista francês. Na verdade, ainda não tive oportunidade de ler "La carte et le territoire", o seu último romance que lhe vale este prémio. Um romance, na opinião dos críticos, menos provocador... Incomoda-me um pouco, é que a provocação, o estilo cru e sem compromissos, que eram apanágio de "Partículas elementares", "Extensão do domínio da luta", "A possibilidade de uma ilha" ou ainda "Plataforma", são precisamente as características que mais me prendem neste autor. Vou lê-lo, e sem tardar...

Michel Houellebecq, Prix Goncourt 2010


Michel Houellebecq reçoit, enfin, le Prix Goncourt! Oui, enfin... Je fais partie des lecteurs assidus de cet écrivain, bien que je n'aie pas encore lu "La carte et le territoire", roman qui lui vaut ce prix. Un roman, selon les critiques, moins provocateur. Ça me gène un peu, la provocation, le style cru et sans compromis, qui étaient l'apanage de "Les particules élémentaires", de "Extension du domaine de la lutte", "Plateforme" ou encore "La possibilité d'une île", c'étaient ce qui me plaisait vraiment chez Houellebecq. Faut que je le lise, ça ne saurait tarder...

Tardi-Verney, "Putain de guerre!"

Terminei os dois tomos desta pérola da Banda Desenhada da actualidade. Esteticamente de grande qualidade. Um relato pugnante e arrasador da Guerra 14-18, das atrocidades das trincheiras, da insanidade das nações, da ingenuidade, também, dos povos. A ler sem demora!

Tardi-Verney, "Putain de guerre!"

Je viens de finir les deux tomes de cette perle de la Bande Déssinée. Esthétiquement de très grande qualité. Un récit poignant de la Guerre 14-18, des atrocités et de l'horreur des tranchées, de la folie des nations, de la naïveté des peuples aussi. À lire sans plus attendre! Suis une petite description retirée du site de l'éditeur Casterman.
«En cette année de commémoration du 90e anniversaire de la fin de la Grande Guerre, et alors que le dernier poilu vient de disparaître, Tardi renoue avec la mémoire de 14-18 à travers son nouveau projet : une évocation en bande dessinée du premier conflit mondial, et de la place qu’y ont occupée, au quotidien, les hommes qui s’y sont affrontés et entretués. Un récit de fiction, mais où le souci de véracité et la rigueur de la reconstitution historique occupent une place primordiale. Ce nouveau projet, dans la forme, reprend le découpage en 3 strips par page déjà utilisé dans l’album. C’était la guerre des tranchées. Le récit débute en couleurs, mais, au fil de sa progression chronologique, et à mesure que la guerre s’enkyste, s’étend et s’approfondit, adopte les tonalités de plus en plus monochromes de la boue et de la grisaille. Avant d’être proposé en librairie en album, fin octobre, ce nouveau grand récit de Tardi fait l’objet d’une publication sous la forme d’un journal grand format, à raison de trois numéros de vingt pages chacun. Chaque numéro du journal, centré par ordre chronologique sur l’une des années de la période 1914-1916, comporte d’une part quinze pages de bande dessinée et d’autre part cinq pages de textes et d’articles, consacrés à l’actualité non-militaire de la période. L’ensemble de ces textes, illustrés par Tardi, est signé de l’historien Jean-Pierre Verney, qui assure depuis des années, aux côtés du dessinateur, le travail de documentation.»
http://bd.casterman.com/albums_detail.cfm?id=33705

2010/11/06

Le veilleur de Lune

Une superbe animation réalisée, notamment, par mon frère...
Uma linda animação da autoria, entre outros, do meu irmão...


video

2010/11/05

Le lit de Procuste

Thésée et Procuste
(kylix attique à figures rouges, 440-430 av. J.-C., British Museum, (vase E84))


            La mythologie grecque est le témoin de la représentation du monde antique à travers un vaste legs de textes ainsi que de reproductions pictoriques.
Au cours des innombrables récits, dont l’encadrement dépasse la sacralité qu’on lui confère habituellement, les personnages e t les évènements évoqués s’octroient une dimension historique qui sert de base aux historiens de l’Antiquité. Ainsi, les mythes deviennent le reflet, il est vrai fantastique, d’une société bien réelle. Cependant, il serait très peu judicieux de considérer anachronique la possibilité d’établir un parallèle entre la mythologie grecque et l’actualité. C’est l’apanage de l’Histoire, com l’illustrait le philosophe napolitain Giambattista Vico dans ses travaux sur la théorie cyclique du «corsi et ricordi», d’utiliser le passé pour faire la lumière sur le présent et même anticiper les temps prochains. Le mythe de Procuste est un des nombreux exemples de ce paradigme.
            Procuste (connu également sous les noms de Procruste, Polypémon ou encore Damastès) vivait, selon l’historien Diodore de Sicile (Ier siècle av. J.-C.), sur la route d’Athènes à Éleusis. Procuste offrait son hospitalité aux voyageurs qui croisaient son chemin cependant avec une intention plutôt macabre. Il attachait ces itinérants sur un lit où ils devaient tenir exactement. Trop grands, ils étaient amputés des membres qui dépassaient; trop petits, Procuste les écartelaient jusqu’à ce qu’ils atteignent la taille requise. C’est la torture de l’uniformisation! Thésée, l’un des plus fameux héros de la mythologie grecque, vaincra le sinistre bourreau en lui infligeant le même sort. Même Procuste n’avait pas les dimensions de sa propre couche!
            Le parallèle avec d’autres moments de l’histoire est aisé. Il suffirait d’évoquer les lois raciales imposées au peuple allemand par l’idéologie nazie, qui se voulaient dans la continuité du darwinisme social en vogue dans l’Europe du XIXème siècle, et qui plaidaient la supériorité et la pureté de la race aryenne. La caricature de l’aryen de grande taille, blond et aux yeux bleus, produit d’une race immaculée par les déboires de l’histoire humaine, sied, en vérité, très peu aux responsables politiques du IIIème Reich. Adolf Hitler, führer d’un empire voué à être millénaire, Joseph Goebbels, ministre de la propagande nazie, Heinrich Himmler, chef incontesté des SS et de la Gestapo, ou encore Rudolph Hess, sont l’exemple de l’incohérence de certains dogmes. Mais tournons-nous vers le présent…
            Selon les chiffres officiels[1], le Portugal comptait, en 2004, près de 450 mil immigrés que l’on peut regrouper en deux catégories : ceux qui détiennent un visa permanent de résidence et ceux qui possède une autorisation de séjour. Parmis ces concitoyens, les brésiliens, les ukrainiens et les capverdiens sont les plus représentés; Amérique du Sud, Afrique et Europe de l’Est; trois continents, trois cultures, trois façons de vivre sur le même sol, dans les mêmes frontières, dans la même alcôve nationale. Dans toute l’Europe, pour ne pas aller plus loin, les questions migratoires et identitaires revêtent un rôle de plus en plus important et, il vrai, inquiétant. Il suffirait de rappeler le modus operandi de l’idéologie fasciste durant le XXème siècle et la portée des axiomes identitaires et nationalistes qui concoururent à son affirmation politique. La France et l’Allemagne, les deux pays européens accueillant le plus d’immigrés, font de leurs systèmes d’intégration, et de la nécéssité de les réformer, le centre de débats récurrents. Cependant, la réalité de ces deux nations, beaucoup plus complexe, avec notamment des questions culturelles et religieuses bien plus soutenues, n’est pas comparable avec le phénomène migratoire vers le Portugal.
            Les immigrés résidant au Portugal constituent, sans aucun doute, un apport très positif pour le pays par la dynamisation de sa fragile économie, contribuant à la stabilisation d’un taux de natalité en chute libre depuis les années 70, fournissant une main d’œuvre entreprenante dans de nombreux secteurs d’activité, finançant, comme n’importe quel contribuable, les retraites, le chômage, la santé, l’éducation, etc. De plus, l’immigration représente une précieuse source d’enrichissement culturel, un croisement fécond de savoir, un inestimable trésor.
            Procuste désirait éliminer les diversités, les fondre dans une norme pré-établie. Cependant, le Portugal, ce pays forgé par une rencontre multiséculaire de cultures, depuis les Phéniciens, en passant par Rome, les Barbares du nord de l’Europe, l’Islam, les échanges avec l’Afrique, l’Asie, jusqu’à la récente entrée dans l’espace communautaire européen, ne peut se laisser tenter par la dérive de l’uniformisation. Jean Bodin affirmait au XVIème siècle qu’ «il n’y a de richesses que d’hommes»; nous y ajouterons que des hommes différents décuplent cette richesse.

[1] Voir le rapport Estatísticas da Imigração du Haut Commisiariat pour l’Immigration et les Minorités Ethniques publié en 2005. http://www.oi.acidi.gov.pt/modules.php?name=News&file=article&sid=879

O leito de Procrusto

Teseu e Procrusto
(kylix ático de figuras vermelhas, 440-430 a.C., British Museum, (vaso E84))


            A mitologia grega é o testemunho da representação do mundo antigo, tanto através de um vasto conjunto de textos como de representações pictóricas. Através das suas inúmeras narrativas, cujo enquadramento ultrapassa a sacralidade que lhe é mais habitualmente conferida, as personagens e os acontecimentos evocados arvoram uma dimensão histórica servindo de base aos historiadores da Antiguidade. Assim, os mitos tornam-se o espelho, deveras fantástico, de uma sociedade autêntica. Contudo, seria errado considerar anacrónico a possibilidade da existência de um paralelismo entre a mitologia grega e a actualidade. É apanágio da História, como o ilustrara o filósofo Giambattista Vico na sua teoria cíclica do «corsi et ricorsi», a utilidade do passado afim de esclarecer o presente, e porventura antecipar os tempos vindouros. O mito do leito de Procrusto é um dos inúmeros exemplos deste paradigma.
            Procrusto (também conhecido como Procrustes, Procusto, Damástes ou ainda Polipémon) vivia, segundo o historiador Diodoro Sículo (séc. I a.C.), junto do caminho que ligava as cidades de Atenas e Elêusis. Procrusto oferecia a sua hospitalidade aos viajantes que por aí passavam, porém, com um intuito bem menos pacífico do que alegara. Os hóspedes eram amarrados numa cama na qual deveriam caber na medida exacta. Os que ultrapassavam o tamanho do leito viam os seus membros decepados; ao contrário, os que não ocupavam a totalidade da cama eram esquartejados até que os seus corpos ocupassem toda a sua extensão. Procrusto infligia, assim, a tortura da uniformização! No entanto, Teseu, um dos mais lendários heróis da mitologia grega, derrota o sinistro hospedeiro aplicando-lhe o mesmo tratamento. É que nem Procrusto cabia exactamente no seu próprio leito!
            O paralelo com outros momentos da História da Humanidade é facilmente demonstrável. Senão, vejamos as assombrosas teorias raciais impostas pelo nazismo, que se reclamavam do darwinismo social em voga na Europa dos finais do século XIX e que pugnavam pela superioridade e pela pureza da raça ariana. Caricaturando… “altos, fortes, louros e de olhos azuis”, uma raça pura que passara imaculada pelos meandros da História. Adolf Hitler, führer de um Reich que duraria mil anos, Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazi, Heinrich Himmler, chef incontestado das SS e da Gestapo, ou, ainda, Rudolph Hess, são casos paradigmáticos da incoerência de certos dogmas. Mas olhemos para o presente…
Segundo os dados oficiais[1], Portugal contava, em 2004, perto de 450 mil imigrantes, divididos entre os que detinham uma autorização de permanência no território, a qual carece de renovação, e os que detinham autorização de residência. Entre estes nossos conterrâneos[2], os brasileiros, ucranianos e cabo-verdianos são os mais representados; América do Sul, África e Europa do Leste; três continentes, três culturas, três vivências distintas, ambas num mesmo espaço geográfico, num leito nacional idêntico. Em toda a Europa, isto para não alargar a problemática à totalidade do orbe, as questões migratórias e identitárias têm assumido contornos cada vez mais relevantes e, na verdade, preocupantes. Bastaria lembrar o modus operandi da ideologia fascista no século XX e a importância dos axiomas identitários e nacionais para a sua afirmação política. França e Alemanha, os dois países europeus que mais imigrantes acolhem, têm debatido os prós e os contras dos seus sistemas de integração das comunidades estrangeiras, e da necessidade de transformações afim de atenuar os efeitos contraproducentes que irreversivelmente geram. Mas não seria sensato comparar liminarmente a imigração destes dois países, que arvora condições muito mais complexas, nomeadamente religiosas, com a realidade portuguesa.
Os imigrantes residentes no nosso país são, sem margem para dúvida, um elemento positivo concorrendo para a dinamização da nossa frágil economia, contribuindo para estabilizar uma taxa de natalidade em queda abrupta desde os anos 70 do século passado, fornecendo mão-de-obra em sectores carenciados, custeando, como qualquer outro contribuinte, as reformas dos nossos idosos, os subsídios dos mais necessitados, todo o sistema de saúde e de educação, etc. Além disso, a imigração representa um manancial cultural invejável, uma fonte diversa de conhecimento, de enriquecimento pessoal, um entrecruzar de saberes que nenhuma obra escrita pode suplantar.
Procrusto desejava eliminar as especificidades, fundi-las numa norma pré-estabelecida em que todos caberíamos mas Portugal, este país moldado ao longo dos séculos pelo encontro de culturas, desde os Fenícios, passando pelos Romanos, Bárbaros do norte da Europa, Mouros, Africanos, Ameríndios, Asiáticos, até à integração no espaço comunitário europeu, não deve cair na tentação da uniformização. Jean Bodin, no século XVI, afirma que «a riqueza está nos homens»; acrescentaríamos que homens diferentes ampliam essa riqueza.

[1] Ver o relatório Estatísticas da Imigração do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas publicado em 2005 (http://www.oi.acidi.gov.pt/modules.php?name=News&file=article&sid=879).
[2] Os que são da mesma terra (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa). Partimos do pressuposto que se estão cá e vivem connosco, também são de cá…